In the Heights: rigor e coração

Em cena até 3 de maio
Luísa Cruz e Gonçalo Rosales (foto: Estelle Valente/EGEAC)

Durante décadas, a produção de musicais em Portugal resumia-se a uma peça anual de Filipe La Féria, a repetir fórmulas desde 1990, e ocasionais achegas de outros criadores, como Ricardo Pais ou Carlos Avilez. Recentemente Ricardo Neves-Neves começou a arriscar-se no género, em espectáculos como Banda Sonora ou A Família Addams, e Paulo Sousa Costa tem vindo a assinar algumas adaptações sem rasgo (como a atual Evita), com a sua Yellow Star Company.

Contudo, é a Music Theater Lisbon, fundada por Martim Galamba, Sissi Martins e Rúben Madureira que está a trazer ao nosso país o verdadeiro espírito da Broadway. Começou com Annie em 2023, foi mais longe com Rent em 2025 e tem agora em cena – até 3 de maio, de quarta a sábado às 21h, e sábados e domingos às 16h – uma versão em língua portuguesa, bem cantada, impecavelmente coreografada e dançada e com banda ao vivo, de In The Heights.

Trata-se de um musical moderno – nada como as óperas-rock ortodoxas de Andrew Lloyd Webber – de Lin-Manuel Miranda, o criador do multipremiado Hamilton, que nos transporta para um bairro latino de Nova Iorque de finais do século XX, cruzando vivências e sonhos de gente de diferentes idades, com ascendências caribenhas e afins. As canções vão beber a essa proveniência, com apontamentos de pop e hip-hop, a assegurar um ritmo contagiante (e, para os fãs de musicais, há ainda outras camadas, ecos de produções lendárias como West Side Story ou Rent). E o enredo é simples, fácil de seguir como convém ao género, mas não simplista: foca questões sérias, das migrações às pressões sociais e familiares, dos sentidos de pertença e comunidade à fé e propósito de vida, tendo como figuras centrais Usnavi – filho de imigrantes, órfão e já perto da meia-idade, que tem o sonho de regressar à República Dominicana de onde os pais partiram para a América – e a Abuela Claudia, uma idosa cuja mãe trocou dias de fome em Cuba pela promessa de melhor sorte em Nova Iorque, em 1943 (na pele de Luísa Cruz, uma das maiores e mais conhecidas atrizes portuguesas, que na verdade sempre quis ser cantora mas a vida empurrou para outros palcos).

Estreado na Broadway em 2008 e vencedor do Prémio Tony para o Melhor Musical desse ano, In The Heights é bom entretenimento. Pode ser leve e não ter um posicionamento político, e é verdade que nem ao de leve toca em problemáticas LGBT (passa-se num bairro latino, sem surpresa católico e conservador, como decerto seria na realidade, nos anos 80/90 em que decorre a ação). Mas cativa, empolga, emociona – e nesta versão a não perder, no Teatro Variedades, em Lisboa, é interpretado por um ensemble irrepreensível (atores, cantores, bailarinos e músicos incluídos) e dirigido com rigor e coração. O que mais se pode pedir de um musical?

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